Contra a Mão do Mercado
Não sei se me repito, mas
acho que vale a pena. Quando o Obama foi eleito, nós aguardávamos o mundo
voltar ao normal. Depois da próxima crise da Europa, a desocupação da reitoria
ou face às últimas lamúrias dos ministros depostos, teremos o mesmo falso
sentimento.
Mas… Não, não voltará! Pelo
simples fato que o mundo nunca foi o mesmo, especialmente após as revoluções
tecnológicas e sociais dos últimos 25 anos. Um quarto de século e não mais
reconhecemos a rua onde moramos. Mas continuamos, de certo modo, enredados por
ainda desconsiderar salvaguardas e acreditar em paradigmas quando há, na
verdade, paradoxos.
Foram-se os bons tempos do
chiclete com banana. O gigante despertou, mas a propaganda é de whisky! No mercado,
hoje é dia de crise com laranja, acidez bancária e bolsas com cebolas ao molho
grego. Mídias sem filtro e obviedades totais, há muito denunciadas por quem
realmente estudou e tem experiência. Não devo correr o risco de ser original.
Além destes mestres, Sexto Empírico, milênios atrás, já escrevia contra os
matemáticos e a arrogância dos especialistas. No agora, estamos contra
os experts, economistas, governos e corporações que fazem contabilidaudes,
audiotarias e matemágicas.
Hoje, mais do que antes, as
coisas não mudaram, para acalmar a multidão ansiosa, precisa-se de futurólogos
para fechar a pauta das seis e chancelar as tendências imaginárias dos mercados
voláteis. Todos devem ouvir opiniões frescas no jornal das oito. Precisa-se do
subliminar e da crueldade: cortejos de motorneiros de metrô, acusando pelo
alto-falante, os usuários pela baixa qualidade do serviço. Comissões que devem
decidir o que será decidido, aprovações relâmpago antes que alguém infiltre um
repórter-mirim e perguntem sobre a hemorragia ética. Precisamos de livros que
nos digam sobre o óbvio, porque todos querem o sucesso, mas ninguém sabe sequer
definir a si mesmo.
Quanto ao fato estridente
destas informações postadas como conhecimento, modificarem sua vida, deixe-me
explicar o que ocorre: todo mundo sabe o que dizer e como salvar sua empresa ou
seu dinheiro, depois que tudo aconteceu. Todos apontam para onde a enxurrada
vai passar e o que você deve fazer para se desesperar melhor. Não entre neste
crediário e será mais feliz. Eu garanto! Aliás, quem garantia era Raul, ao
dizer que todo mundo explica tudo, como a luz acende e o avião pode voar!
A coisa toda me lembra a
brilhante análise de Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte, (alguém leu?
Não? Xii! Desculpe!). Como disse alguém, a explicitação foi incrível. Pena que
o fato já havia ocorrido e o relato mera reconstituição da lógica e sincronia
entre os acontecimentos, a título de validação da teoria. Estas formações
discursivas do opinativo não devem fazer você sentir-se desmotivado. Somente
quem já está em dificuldades, especulou em derivativos ou depende urgentemente
de crédito para sobreviver, sentirá a ressaca globalizada. Mas, como as
marionetes, em última análise estão presas nas cordas, certamente haverá
solavancos e alguns fios irão romper.
Isto significa que a maior
parte da economia, incluindo eu e vocês, absorverão as mudanças. Volta e meia
alguém grita: Crise! Mas, a crise não passa de uma metáfora para descrever
aquilo que os especialistas perderam a possibilidade de entender. Então o Banco
Central entra no samba técnico ou alguém vêm à mídia para opinar e
“tranquilizar” os mercados. Ora, o mercado é você que tem dinheiro para
investir. Ponto. Você também é responsável.
Naturalmente, para a massa e
devido à fraqueza de nossas relações com as instituições, ou seja – nossa
cidadania de segunda classe -, os cidadãos poderão arcar com mais impostos,
majoração de alíquotas e criativas novas taxas de fornecimento de serviços. A
grande histeria que se seguiu aos acontecimentos iniciados pelos recentes
incidentes internacionais foi um alerta para as fragilidades do sistema mundial
e para a falta crônica de ética nas operações dos “mercados e economias”. A mão
invisível esconde a chaga do egoísmo, da ganância e das posturas aéticas,
afinal quem é que mantém o preço quando há procura?
Nesta nova configuração das
forças mundiais, mesmo que utopicamente podemos ter a oportunidade de
demonstrar nossas maiores capacidades, entre elas de inovação e produção de
excelência, sem fritar o meio ambiente ou imbecilizar a nação. Mesmo mal
passados, temos talentos e se injetarmos um pouco de cultura e educação (boa
educação, quer dizer valores e não o currículo do MEC) e, aproveitando a onda
higienizarmos a contaminação alienígena que instrumentaliza as mentes e impele
as classes mais ignorantes aos paraísos insustentáveis de consumo, sem a devida
escala no respeito ao próximo, tudo andará bem.
Se ousarmos acreditar em
fomentar nosso desenvolvimento através do estímulo ao conhecimento, saneamento
político e racionalização das leis, daremos o salto estratégico que nos levará
a liderança mundial em inúmeros setores, quem sabe, até na área tributária, tão
pernóstica e ultrapassada, com seus pequenos homens preocupados em gerir
empresas, tributos e pessoas como quem toca gado; maltratando a manada de
milhões, apenas com o olho na rês que pode fugir.
Enquanto isso não ocorrer,
teremos que conviver com estados paralelos, corrupção sistêmica e a violência
em todas as esferas da sociedade. Fica também prejudicada qualquer iniciativa
que garanta um pouco de justiça ou equilíbrio ao tecido social, pois é uma luta
desigual do direito contra a economia de mercado, onde a sobrevivência da
corporação – neste modelo, diga-se – somente é possível através do aumento
incessante da produtividade, redução de custos e inovação tecnológica com
domínio de novos mercados. É o triângulo do diabo!
De qualquer modo, não vivemos
mais uma era romântica, onde os homens, livres do trabalho, se dedicariam a
outras coisas. Nem podemos mais nos permitir ser ingênuos, pois todo o grito de
luta, ao mesmo tempo esconde o interesse particular. Tempos, certamente
difíceis, onde não há um lado “certo” à escolher e um motivo realmente justo
por que lutar, excetuando-se, como disse, a resistência contra as corrupções.
O lado bom disto é que a
inteligência e as competências são desafiadas a todo o momento e isto nos traz
realização pessoal, retorno profissional e social caso consigamos manter o
curso dos acontecimentos. O lado negro da força é que a economia e os mercados
dominam o modus vivendi das empresas e acabam detendo o controle de todo
o processo organizacional onde ignorarão os danos físicos, éticos e
psicológicos causados pelo excesso de pragmatismo e objetividade, em função
apenas dos resultados pretendidos e exigidos de quem trabalha. Quase igual ao
que o fisco e os bancos fazem com você, brasileiro. Afinal, ninguém chega aos
bilhões, se não quebrar alguns ovos… quer dizer, cobrar algumas taxas.
Uma solução para nossa espécie
é que, se atualmente vivemos em rede, interconectados, podemos multiplicar
esforços. Por isso, somente quando todos participam é que pode haver melhorias.
Mesmo que semeando idéias e falando do óbvio.
Luís Sérgio Lico é Palestrante,
Consultor e
Educador Corporativo. Doutorando em Filosofia, Mestre em Ética e
Especialista em Pedagogia Empresarial. Seu trabalho une ampla
experiência empresarial com aguda visão diagnóstica para estratégias
diferenciadas. Por isso, é considerado como um dos
palestrantes mais diferenciados da atualidade. Mais de
70.000 profissionais já estiveram em seus cursos e palestras em todo o Brasil
Diretor da Consultive Labs, Professor e ex-Coordenador Pedagógico dos cursos corporativos da Unisescon/Trevisan Escola de Negócios; Membro do GEP - Grupo de Excelência em Estratégia, Inovação e Planejamento do CRA/SP - Conselho Regional de Administração de São Paulo; Consultor em Educação Corporativa do Sindiclube; Professor de Pós-Graduação em Psicologia Organizacional, Gestão de Mudanças e Gestão de Pessoas e Designer de Conteúdos; Autor dos Livros: O Profissional Invisível, Fator Humano e Onde todo Homem é uma Pátria.
Diretor da Consultive Labs, Professor e ex-Coordenador Pedagógico dos cursos corporativos da Unisescon/Trevisan Escola de Negócios; Membro do GEP - Grupo de Excelência em Estratégia, Inovação e Planejamento do CRA/SP - Conselho Regional de Administração de São Paulo; Consultor em Educação Corporativa do Sindiclube; Professor de Pós-Graduação em Psicologia Organizacional, Gestão de Mudanças e Gestão de Pessoas e Designer de Conteúdos; Autor dos Livros: O Profissional Invisível, Fator Humano e Onde todo Homem é uma Pátria.
Contatos:
ola@consultivelabs.com.br -
www.consultivelabs.com.br
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário